Nariz entupido todo dia: e se o problema não for gripe?
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Seu nariz vive entupido, mas a gripe nunca chega? Entenda quando espirros, coceira e congestão podem indicar rinite alérgica.
Você acorda espirrando, passa o dia respirando pela boca e vai dormir com a sensação de que uma narina nunca está completamente livre.
Parece um resfriado. A diferença é que a febre não aparece, o corpo não dói e os sintomas continuam por semanas ou retornam sempre que você limpa a casa, muda o tempo ou entra em contato com poeira.
Quando o “resfriado” nunca termina, talvez o problema não seja uma infecção. Nariz entupido, coriza transparente, coceira e crises de espirros são sinais frequentes da rinite alérgica.
A chegada da primavera pode tornar essas manifestações mais perceptíveis, mas os gatilhos nem sempre estão do lado de fora. Muitas vezes, eles vivem dentro de casa.
O que acontece no nariz durante uma crise de rinite?
A rinite alérgica é uma inflamação da mucosa que reveste o interior do nariz.
Em pessoas predispostas, o sistema imunológico reage de forma exagerada ao contato com substâncias geralmente inofensivas, como ácaros, poeira, fungos, pólens e partículas provenientes de animais.
Essa reação libera mediadores inflamatórios que provocam inchaço da mucosa e aumento da produção de secreção.
O resultado pode incluir:
nariz entupido;
coriza clara e aquosa;
espirros repetidos;
coceira no nariz;
coceira nos olhos, no céu da boca ou nos ouvidos;
lacrimejamento;
redução do olfato;
sensação de secreção descendo pela garganta;
tosse, especialmente à noite.
Os sintomas podem ser ocasionais ou persistentes. Em algumas pessoas, aparecem apenas em determinadas épocas. Em outras, fazem parte da rotina durante praticamente todo o ano.
Como diferenciar rinite alérgica de resfriado?
As duas condições podem causar espirros, coriza e obstrução nasal, mas existem algumas pistas.
Na rinite alérgica, são mais comuns a coceira, os espirros em sequência e a secreção transparente. Os sintomas podem começar rapidamente após o contato com um gatilho e continuar enquanto a exposição permanece.
No resfriado, podem surgir dor de garganta, mal-estar, febre baixa, tosse e secreção que muda de aspecto ao longo dos dias. Por ser provocado por vírus, geralmente apresenta uma evolução limitada.
Outra diferença está na repetição. Se as crises aparecem ao arrumar um armário, dormir em determinado quarto, visitar uma casa com animais ou durante mudanças de estação, uma causa alérgica ganha importância.
Ainda assim, os sintomas podem se sobrepor. Também é possível ter rinite e, ao mesmo tempo, desenvolver um resfriado.
Por que a primavera pode piorar os sintomas?
Na primavera, algumas plantas liberam maior quantidade de pólen. Essas partículas podem desencadear sintomas em pessoas sensibilizadas.
Mudanças de temperatura, vento, baixa umidade e aumento do tempo ao ar livre também podem influenciar as crises.
No Brasil, porém, a rinite não é apenas um problema da primavera. Ácaros e fungos encontrados em colchões, travesseiros, tapetes, cortinas e objetos que acumulam poeira podem provocar sintomas durante todo o ano.
Por isso, uma pessoa pode piorar tanto em um jardim quanto ao abrir um armário que ficou fechado por muito tempo.
Quais gatilhos podem estar dentro de casa?
Entre os possíveis desencadeantes estão:
poeira doméstica;
ácaros;
mofo;
umidade;
pelos e partículas de animais;
fumaça de cigarro;
perfumes e produtos com odor intenso;
incensos;
sprays de limpeza;
ar-condicionado sem manutenção adequada;
mudanças bruscas de temperatura.
Isso não significa que seja necessário transformar a casa em um ambiente estéril ou retirar um animal de estimação sem confirmar a relação com os sintomas.
O controle ambiental deve ser direcionado aos gatilhos relevantes para cada pessoa. Medidas exageradas aumentam o trabalho e nem sempre oferecem benefício.
Respirar pela boca é apenas um incômodo?
Não. Quando a obstrução nasal se torna frequente, a pessoa pode começar a respirar pela boca, principalmente durante o sono.
Isso favorece ressecamento da garganta, ronco, despertares noturnos e sensação de sono não reparador. Durante o dia, podem aparecer cansaço, irritabilidade e dificuldade de concentração.
Em crianças, a obstrução persistente merece atenção porque pode afetar o sono, o desempenho escolar e o desenvolvimento da face e da mordida.
A rinite também pode coexistir com asma. Tosse, chiado ou falta de ar precisam ser informados durante a consulta.
Por que o nariz entope mais quando deitamos?
Ao deitar, mudanças na circulação sanguínea podem aumentar o volume dos tecidos dentro do nariz. Além disso, secreções tendem a se acumular com mais facilidade.
Quem já possui uma mucosa inflamada pode perceber uma obstrução mais intensa durante a noite.
A posição também pode fazer uma narina parecer mais fechada que a outra. Existe um ciclo nasal natural no qual as narinas alternam períodos de maior e menor passagem de ar. Na rinite ou em alterações estruturais, essa alternância pode ficar muito mais evidente.
O descongestionante pode virar parte do problema?
Os descongestionantes nasais vasoconstritores costumam abrir o nariz rapidamente. Justamente por funcionarem em poucos minutos, podem criar a impressão de que são a melhor solução para uso diário.
O problema aparece quando são utilizados por tempo prolongado. Com o uso repetido, a mucosa pode voltar a inchar assim que o efeito passa, levando a pessoa a aplicar o produto novamente.
Forma-se um ciclo de alívio rápido e obstrução cada vez maior, conhecido como efeito rebote ou rinite medicamentosa.
Diretrizes atuais recomendam que esses produtos sejam usados apenas por períodos muito curtos. Pessoas com hipertensão, doenças cardíacas, glaucoma, gestantes, crianças e pacientes que usam outros medicamentos podem ter contraindicações específicas.
Se você precisa do descongestionante todos os dias para respirar, o mais importante não é trocar de marca: é investigar a causa da obstrução.
Lavagem nasal ajuda?
A higiene nasal com solução salina pode remover secreções e parte das partículas depositadas na mucosa. Também ajuda a hidratar o nariz e pode proporcionar alívio temporário da congestão.
Para ser realizada com segurança, é necessário usar solução e dispositivo adequados, manter o recipiente limpo e seguir a orientação sobre a técnica.
A lavagem pode fazer parte do cuidado, mas não substitui o tratamento anti-inflamatório quando a rinite é persistente ou moderada a intensa.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico começa pela história dos sintomas. O otorrinolaringologista investiga quando as crises aparecem, quanto tempo duram, quais ambientes pioram o quadro e se existem outras doenças alérgicas.
Durante o exame, o médico observa a mucosa, a secreção, o tamanho dos cornetos nasais e possíveis alterações estruturais.
A endoscopia nasal pode ser utilizada para avaliar áreas mais profundas e investigar pólipos, secreção persistente, aumento de adenoide ou outras causas de obstrução.
Testes alérgicos cutâneos ou exames de sangue podem ajudar a identificar sensibilizações quando o resultado tiver potencial para orientar o tratamento. Um teste positivo, sozinho, não comprova que aquela substância seja responsável por todos os sintomas.
Nem todo nariz entupido é rinite alérgica
A obstrução nasal também pode estar relacionada a:
rinite não alérgica;
desvio de septo;
aumento dos cornetos;
rinossinusite;
pólipos nasais;
hipertrofia da adenoide;
uso excessivo de descongestionantes;
alterações da válvula nasal;
presença de corpo estranho, especialmente em crianças.
Obstrução persistente apenas de um lado, secreção com odor forte, sangramentos recorrentes ou perda progressiva do olfato precisam de avaliação.
Tratar toda congestão como alergia pode atrasar o diagnóstico de um problema estrutural ou inflamatório diferente.
Como a rinite alérgica é tratada?
O tratamento é individualizado conforme a intensidade e a frequência dos sintomas. Ele pode combinar:
redução da exposição a gatilhos relevantes;
higiene nasal com solução salina;
anti-histamínicos;
corticosteroides intranasais;
associações de medicamentos em quadros selecionados;
imunoterapia para pacientes com indicação específica.
Os corticosteroides intranasais atuam diretamente na inflamação e estão entre as principais opções para rinite persistente. Quando usados corretamente e com orientação, não possuem o mesmo perfil de risco dos descongestionantes vasoconstritores.
A técnica de aplicação também faz diferença. Direcionar o jato de forma inadequada pode reduzir o efeito e aumentar a chance de irritação ou sangramento.
Não utilize medicamentos emprestados nem mantenha tratamentos antigos sem reavaliação.
Rinite alérgica tem cura?
Não existe uma cura única aplicável a todos, mas é possível controlar os sintomas e reduzir significativamente seu impacto.
Algumas pessoas atravessam longos períodos praticamente sem crises quando combinam controle ambiental e tratamento adequado.
A imunoterapia, também conhecida como vacina para alergia, pode modificar a resposta imunológica a determinados alérgenos. Ela é considerada em casos selecionados, após avaliação e confirmação das sensibilizações relevantes.
O tratamento costuma exigir consistência. Usar a medicação apenas nos dias mais difíceis pode não ser suficiente quando existe inflamação persistente.
Cirurgia trata rinite?
A cirurgia não elimina a predisposição alérgica.
Ela pode ser considerada quando alterações estruturais, como desvio de septo ou aumento importante dos cornetos, contribuem para a obstrução e não respondem adequadamente ao tratamento clínico.
Mesmo após um procedimento, o controle da rinite pode continuar necessário.
A decisão depende do exame, da intensidade dos sintomas e do quanto a obstrução interfere no sono e na qualidade de vida.
Quando procurar um otorrinolaringologista?
Procure avaliação quando:
o nariz permanece entupido por várias semanas;
os sintomas prejudicam o sono, o trabalho ou os estudos;
há necessidade frequente de descongestionante;
o olfato está reduzido;
existe ronco ou respiração pela boca;
as crises não melhoram com os cuidados iniciais;
há sangramentos recorrentes;
a obstrução acontece predominantemente de um lado;
tosse, chiado ou falta de ar acompanham as crises.
Febre alta, dor facial intensa, inchaço ao redor dos olhos, alteração da visão, dor de cabeça muito forte ou dificuldade importante para respirar exigem avaliação rápida.
Quando o “resfriado” dura uma estação inteira, vale mudar a pergunta
Talvez a questão não seja por que você vive gripado, mas o que está mantendo seu nariz inflamado.
Reconhecer os momentos e ambientes em que os sintomas aparecem ajuda a encontrar os gatilhos. Uma avaliação adequada também permite diferenciar rinite alérgica de alterações estruturais e de outras doenças nasais.
Se você já não se lembra da última vez em que respirou livremente sem usar um descongestionante, procure um otorrinolaringologista. Respirar melhor não deve depender de um alívio que dura apenas algumas horas.